quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Adeus...


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes
E eu acreditava.
Acreditava.
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade in «Os Amantes sem Dinheiro»

8 comentários:

Pipe Shadow disse...

Não conhecia...
Li e voltei a ler.

Estou atónito!

B disse...

Oh pah, este Eu-génio... filho da mãe. Mania de escrever coisas destas (não é que eu conheça mais nada para dizer a verdade :( mas dá vontade de conhecer). Xi, o raio do texto tocou-me mais do que estava à espera. Filho da mãe do Andrade.
Beijos

PS: Este "filho da mãe" é carinhoso :)

Hydrargirum disse...

Gostei.....mas....sim....gostei....contudo....
:(
Gostei...

Jinhos:)

Mafalda disse...

Um dos meus poemas preferidos.

Transpôs para o papel o que nunca conseguimos pôr para fora.

Um génio da poesia.

Bjca**

Anônimo disse...

É bom sinal quando as coisas acabam por as palavras estarem gastas, é quase sempre sinal de que nada restou e que tinha mesmo que ser assim.

Um grande beijinho para ti!

Lisa's mau feitio disse...

(suspiro...)

Tão meu, tão meu, tão meu este poema...
tão minhas estas palavras.
Posso levar para guardar num qualquer sotão aqui pela alma?

Bjinho...

Fica bem, sim? :)

Lisa

Anônimo disse...

Acho que já tinha lido este poema, quando andava na escola. Pelo menos, não me é estranho.
E é lindo, como todos os poemas de Eugénio de Andrade, que li até agora.
Bjs!

redordead disse...

Também eu 'postei' este poema há não muito tempo... devemos andar em sintonia, deve ser do signo!